Durante o primeiro semestre de 2025, estudantes do curso de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) participaram da disciplina de História e Relações Étnico-Raciais, que incentivou a criação e edição de verbetes na Wikipédia. O foco do trabalho foi o resgate de experiências e agentes da imprensa e do associativismo negro no Brasil pós-abolição.

Autor: GuilhermeFavaretto123
Disponível em CC BY SA 4.0 no Wikimedia Commons
A iniciativa foi promovida por meio de uma parceria entre o Projeto Imprensa Negra Educadora (PINE), coordenado pela professora Melina Kleinert Perussatto, o Projeto Mais Teoria da História na Wiki (Projeto Mais+), e os professores Marcus Vinícius de Freitas Rosa e Fernanda Oliveira.
Criando memória, apresentando narrativa
A proposta teve como objetivo estimular o uso da Wikipédia como ferramenta de divulgação científica ao mesmo tempo em que fortalecia a produção de conteúdo sobre temas e personagens historicamente marginalizados. Com o apoio do Projeto Mais+, o PINE ofereceu suporte para criação de artigos aos alunos das turmas dos professores Marcus Vinícius de Freitas Rosa e Fernanda Oliveira, interessados em se aproximar do ecossistema Wikimedia.
O projeto ainda contou com uma oficina sobre o uso da Wikipédia ministrada por Lucas Piantá. Além de editar nas plataformas Wikimedia desde 2018, Piantá é historiador pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com mestrado em história social pela UFRGS e MBA em Gestão de Projetos pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Dada a sua experiência, foi convidado para facilitar a oficina de forma presencial na instituição onde concluiu seu mestrado. Para ele, as oficinas ministradas virtual e presencialmente são assimiladas de formas diferentes, sendo o segundo tipo, geralmente, mais proveitoso: “Eu consigo compreender melhor o grupo, saber para onde levo a oficina, qual é o ritmo que tenho que dar, tudo isso faz diferença”, reflete o wikimedista.

Autor: Léo zanini
Disponível em CC BY SA 4.0 no Wikimedia Commons
As turmas da disciplina de História e Relações Étnico-Raciais foram organizadas em grupos, nos quais cada um esteve responsável por criar ou editar um verbete relacionado à imprensa negra ou ao associativismo afro-brasileiro, especialmente no contexto gaúcho. O trabalho foi construído ao longo do semestre com base nas pesquisas realizadas pelos estudantes e nos textos discutidos em sala de aula.
O Projeto Mais+ colaborou com a atividade ao organizar a oficina de capacitação, com Lucas Piantá, realizar orientações para uso das ferramentas da Wikipédia, oferecer apoio técnico para a criação de contas e acompanhamento contínuo das edições. Há alguns anos, nossa equipe promove esse tipo de trabalho com projetos pedagógicos relacionados às plataformas Wikimedia. Para isso, conta com o apoio de uma rede de wikimedistas voluntários e experientes, que são acionados para conduzir capacitações (como foi o caso desse projeto) ou prestarem algum outro tipo de apoio técnico quando necessário.
Atualmente, na Wikipédia, há uma grande parcela de editores ativos com formação em História. Nesse sentido, este projeto, dirigido aos estudantes do curso, também aponta para uma possibilidade de atuação profissional no futuro e para os desafios da história pública em um mundo hiperconectado. “Foi muito legal trazer as reflexões sobre quem é o historiador da Wikipédia, o que nos permite colocar o conhecimento histórico ali dentro e como que a gente faz a mediação do conhecimento acadêmico com os princípios e protocolos da plataforma”, comenta Piantá.
Entre as principais dificuldades enfrentadas pelos estudantes, destacaram-se: a estruturação adequada dos verbetes, conforme os padrões da plataforma; a inserção correta de referências e fontes confiáveis; e a sobreposição de tópicos entre os grupos, o que exigiu atenção, organização e cooperação durante todo o semestre.
Verbetes publicados
O material produzido pelos estudantes se concentrou em organizações, jornais e personalidades negras fundamentais para compreender a vida intelectual e comunitária do pós-abolição em três cidades gaúchas — Bagé, Pelotas e Porto Alegre. No campo da imprensa, foram cinco verbetes editados: A Revolta, A Liberdade e O Palmeira, de Bagé; A Alvorada, de Pelotas; e a Revista Tição, de Porto Alegre. Esses periódicos, como revelaram as pesquisas realizadas em sala de aula, funcionaram como espaços decisivos de articulação política e produção intelectual negra. Seus títulos — evocando rebeldia, liberdade, alvorada e fogo — dialogavam diretamente com movimentos de emancipação e disputas por cidadania no período em questão, quando a exclusão racial se reconfigurava sob novas formas. Ao circularem entre leitores negros, esses jornais e revistas se tornaram ferramentas essenciais para discutir direitos, denunciar desigualdades e afirmar identidades coletivas.
Na mesma direção, os verbetes biográficos desenvolvidos abordam figuras centrais para a existência dessa imprensa. Entre elas estão Vera Daisy, jornalista e militante cuja atuação marcou a Revista Tição como um dos principais espaços de reflexão negra no Rio Grande do Sul; a Família Penny, responsável por consolidar A Alvorada como um importante veículo de organização comunitária; e Sérgio Aurélio de Bittencourt, liderança porto-alegrense ligada a iniciativas culturais e comunicacionais voltadas para a população negra.

Autora: Miréia Figueiredo (Projeto Mais+)
Disponível em CC BY SA 4.0 no Wikimedia Commons
As organizações cujos verbetes foram melhorados e ampliados no projeto — a Irmandade Nossa Senhora do Rosário, o Clube Náutico Marcílio Dias, a Sociedade Musical Lyra Orienta e a Associação Satélite Prontidão — também ganharam destaque pela centralidade que tiveram na vida cotidiana da comunidade negra. Funcionando como espaços de sociabilidade, apoio mútuo, práticas religiosas, atividades esportivas, de música e lazer, esses grupos foram fundamentais para a construção de redes comunitárias e para a afirmação cultural em uma sociedade ainda profundamente marcada pelo racismo estrutural.
Contribuições para o conhecimento livre
Essa experiência demonstra como as plataformas Wikimedia podem ser utilizadas para promover a valorização da história negra, unindo pesquisa acadêmica, inovação pedagógica e engajamento estudantil. Além disso, reforça a importância de projetos colaborativos na produção de conhecimento livre, crítico e acessível na internet.
Assim, ao final desse projeto fica, mais uma vez, destacado o potencial das plataformas Wikimedia, que podem ser aliadas tanto de alunos quanto de professores. Para além de ferramentas de pesquisa, devem ser compreendidas como ferramentas de ensino e extensão e, para isso, é necessário garantir a qualidade da informação divulgada, capacitando e oferecendo apoio às pessoas editoras. Esse foi o papel do Projeto Mais+ e do Lucas Piantá nesse processo. Para Piantá, ao explorar os diversos usos das plataformas Wikimedia, é possível perceber como elas podem ser um ambiente de divulgação e de reparação histórica, pois permitem que sujeitos marginalizados registrem suas histórias e conhecimento no mundo.
Com o apoio do Projeto Mais+, que tem atuado desde 2022 na formação e acompanhamento de professores e estudantes para uso qualificado da Wikipédia, a parceria com o PINE representa mais um passo na construção de iniciativas comprometidas com a democratização do conhecimento e a visibilidade de histórias não-hegemônicas. Para conhecer mais sobre o trabalho e o calendário de atividades do Projeto Mais+, acompanhe a nossa página no Meta-Wiki e as nossas redes sociais: Instagram e YouTube.
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