Repatriação do manto Tupinambá, parcerias de educação e difusão científica sobre povos originários na Wikipédia

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Retorno do Manto Tupinambá ao Brasil, no Museu Nacional. Rio de Janeiro – RJ.
Lula Oficial, CC BY-SA 2.0

Há alguns anos, a Wikimedia Brasil estabeleceu uma parceria com o Laboratório Mulheres indígenas na Wikipédia (Lamiw), uma iniciativa de humanidades digitais fundada em 2020 no Instituto de História da Universidade Federal Fluminense (IHT-UFF) e voltada à divulgação científica na internet. Coordenado pela professora Elisa Frühauf Garcia, o projeto busca contribuir de forma contínua para a difusão do conhecimento acadêmico sobre os povos indígenas na Wikipédia, contribuindo para a efetiva implementação da Lei 11.645/2008, que estipula a obrigatoriedade do ensino dessa temática em todas as escolas brasileiras.

Atualmente, o conjunto de artigos melhorados ou criados pelo Lamiw ultrapassa meio milhão de visualizações. Além disso, a iniciativa tornou-se, em 2024, o primeiro laboratório da área de História a ser catalogado como iniciativa de tecnologia social — uma ação da UFF que reconhece projetos com potencial de responder, de forma prática, a problemas da sociedade. O projeto também foi convidado a integrar o INCT (In)atividade Física e Saúde. INCTs (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia) são iniciativas interdisciplinares voltadas à solução de problemas por meio do conhecimento científico e tecnológico. 

Atividade em sala de aula motivada pela repatriação do manto Tupinambá

Pollyana Feitosa, CC BY-SA 4.0

Em parceria com o laboratório, iniciamos em 2024 uma atividade em sala de aula com estudantes da graduação em História da UFF. Alunos e alunas matriculados na disciplina Ensino da História Indígena participaram da criação e da melhoria de verbetes sobre personalidades e temas ligados aos povos indígenas, com o objetivo de ampliar a presença de culturas sub-representadas nas plataformas Wikimedia e, portanto, no ambiente digital.

As parcerias educacionais, em geral, incluem formação teórica e prática, e assim foi estruturada essa atividade. Em um primeiro momento, oferecemos uma oficina de apresentação das plataformas Wikimedia, com atenção especial à Wikipédia, abordando os projetos Wiki, seus princípios, potencialidades e critérios de qualidade, além de uma oficina prática de edição.

Em um segundo momento, após um intervalo para que os participantes desenvolvessem suas pesquisas sob orientação da professora, realizamos um encontro voltado à wikificação dos conteúdos produzidos para publicação na plataforma. A Wikimedia Brasil também apoiou a atividade com a criação e manutenção de uma página específica na Wikipédia e com um programa no Outreach Dashboard para monitoramento e contabilização das métricas alcançadas. 

A principal motivação para a atividade foi a devolução ao Brasil, em 2024, de um dos mantos Tupinambás que estavam na Dinamarca. Um manto tupinambá é uma vestimenta sagrada utilizada em diferentes cerimônias e rituais por diversos povos indígenas brasileiros. Em 2024, eram reportados 11 mantos confeccionados nos séculos XVI e XVII, dos quais dez se encontravam em cinco países da Europa. A peça, anteriormente preservada no museu de Copenhague, encontra-se atualmente no Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Durante a atividade, os estudantes melhoraram o artigo já existente, que, à época, continha poucas informações. 

Francis Kéré, primeiro arquiteto africano a receber o Prêmio Pritzker, inspirou-se no manto Tupinambá através de uma visita ao Museu Nacional, integrando-o à arquitetura Biblioteca dos Saberes, da qual é o projetista. A biblioteca é um novo projeto que será instalado na cidade do Rio de Janeiro e trará uma conexão em sua estrutura e em sua curadoria às culturas indígenas e afro-brasileiras.

Foto da artista Glicéria Tupinambá.
ElisaFGarcia, CC BY 4.0 

Ainda no contexto da repatriação do manto, os estudantes se engajaram na criação do verbete de Glicéria Tupinambá, artista, professora e liderança indígena com ampla trajetória de pesquisa sobre os mantos Tupinambás e participação direta no processo de retorno da peça ao Brasil. 

Ao trabalhar na criação de um verbete biográfico sobre uma pessoa indígena viva, os alunos tiveram a oportunidade de discutir a ética envolvida nesse tipo de produção. Isso porque, embora não seja necessário solicitar autorização para criar um verbete, a professora observa que, no caso de povos originários, essa prática pode reproduzir mais uma forma de violência: a exclusão da participação. Por esse motivo, a professora convidou Glicéria para uma leitura prévia do artigo e para contribuir ativamente com sua melhoria, inclusive por meio do fornecimento de fontes.

O verbete de Glicéria Tupinambá já foi traduzido para o inglês em uma disciplina de História da Arte em uma universidade dos Estados Unidos, o que, para a professora, é especialmente significativo por se tratar de conteúdo brasileiro circulando internacionalmente.

Além dos verbetes da pesquisadora e do manto, também foram melhorados, no contexto da atividade de 2024, artigos sobre outras personalidades indígenas, como Joênia Wapichana, Clara Camarão, Arariboia e Sônia Guajajara. 

JCunha (WMB), CC BY-SA 4.0

Agora, em 2026, repetimos a ação dentro da mesma disciplina, com uma nova turma e uma lista ainda maior de verbetes. Por meio dessa nova editatona, que acontece ao longo de todo o primeiro semestre deste ano, os estudantes poderão melhorar e criar artigos sobre figuras indígenas notórias, história indígena de diferentes povos originários, história da escravidão indígena no Brasil e outros temas correlatos. O Outreach Dashboard está disponível aqui. 

Para Elisa Garcia, o compartilhamento da informação produzida no ambiente universitário com o grande público, devolvendo à sociedade o investimento público, não é o único aspecto positivo da iniciativa. Segundo a professora, “ao editar verbetes sobre mulheres indígenas, povos originários e patrimônio cultural brasileiro, os estudantes desenvolvem não apenas habilidades de pesquisa e escrita, mas também uma consciência crítica sobre ética, representatividade e responsabilidade social. Essa experiência amplia a compreensão sobre os processos de produção e circulação da informação, ao mesmo tempo em que combate desigualdades epistêmicas históricas e estimula reflexões sobre o papel das tecnologias na formação do saber contemporâneo.”

Desafios

A realização da atividade, tanto em 2024 quanto em 2026, enfrenta desafios recorrentes em diferentes programas de educação desenvolvidos em universidades brasileiras. Em geral, eles estão ligados à falta de internet de qualidade e ao acesso limitado a computadores. A ausência de computadores ou notebooks, em especial, revelou-se um fator de complexidade nas atividades aqui documentadas, pois dificultou a aprendizagem, já que a edição pelo celular ainda é menos intuitiva.

Para lidar com esse desafio, que resulta em menor número de artigos editados, temos incentivado os estudantes a manterem uma edição contínua e assíncrona durante todo o semestre, para além dos verbetes selecionados para a editatona, de modo que, por meio de tarefas de nível fácil ou intermediário, adquiram confiança para realizar edições mais robustas na plataforma. Além disso, mantemos um canal de comunicação por e-mail com os alunos, para que dúvidas possam ser esclarecidas entre as oficinas.  

Mesmo assim, os desafios não superam os bons resultados da ação. Como pontuou Elisa Garcia, “A Wikipédia tem se consolidado como uma poderosa ferramenta pedagógica, capaz de aproximar a produção acadêmica do público em geral e de promover práticas de ensino mais participativas, colaborativas e inclusivas. No contexto do Laboratório Mulheres Indígenas na Wikipédia (Lamiw), sediado na UFF e reconhecido pela universidade como uma tecnologia social desde 2024, a plataforma é utilizada como um espaço de construção coletiva do conhecimento e de exercício da cidadania digital.”

Referências 

GARCIA, Elisa Fruhauf. “A história como uma tecnologia social: o Laboratório Mulheres Indígenas na Wikipédia”. In: MÜLLER, Angélica; SANTOS, Ynaê Lopes dos & BARRETO, André (orgs.). Escrever (n)o tempo presente: ensaios e experiências (no prelo).

GLICÉRIA TUPINAMBÁ. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Glic%C3%A9ria_Tupinamb%C3%A1. Acesso em: 5 maio 2026.

MANTO TUPINAMBÁ. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Manto_tupinamb%C3%A1. Acesso em: 5 maio 2026. 

Wikimedia Brasil. Wikipédia 25 anos: produzindo uma história pública. 18 fev. 2026. Disponível em: https://wmnobrasil.org/2026/02/18/wikipedia-25-anos-produzindo-uma-historia-publica/. Acesso em: 5 maio 2026.

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